quarta-feira, outubro 11, 2006

Textos Extras sobre A Y-Guaçu - Uma teologia

As lições da Criação de Nhamandu
Ñandé Ru Papa Tenondé
gueterã ombojera
pytũ ymágui


Se fecharmos nossos olhos, poderemos ver a cena da criação do mundo. Nhamandu, na imensa escuridão, decide criar um corpo parecido àquele que, um dia, ele dará a seus filhos e filhas. Filhos e filhas que um dia habitarão uma terra que ele está para criar. Nhamandu vai assumir a forma humana. Quer dizer, Nhamandu vai assumir a forma de corpo ou manifestação que ele acaba de pensar. Para isso, ele “gueterã ombojera” – cria seu corpo divino. A partir de quê? Da escuridão original.

Criar aqui é a última sílaba do que parece ser uma palavra “ombojera”. “Ra” é a raiz, é o conceito de verbo. E criar aqui não tem o significado de criar algo do nada. Antes tem o sentido de abrir, desatar, desenvolver. O ato de desatar, abrir e desenvolver, tirar o invólucro e deixar que se manifeste o que estava dentro. Nhamandu deixou desabrochar o que estava escondido na escuridão. Isto é criação no sentido aproximado do que o Guarani vê, quando diz, “Nhamandu criou...”

Enquanto Nhamandu criava o corpo (forma humana), ele já existia. Nhamandu é o Supremo. O Brahma. Para criar o seu próprio corpo, ele simplesmente deixou que acontecesse, que a criação se abrisse, assim como se abre uma flor.

É muito importante este conceito de criar, no sentido de permitir que se abra, que se desate e que se deixe sair o que estava contido. Esta é uma das lições desta Teologia das Cataratas. A Fonte da Neblina Criativa. Para ser criativa/o simplesmente faça como Nhamandu: se abra, se desate e se deixe fluir. Este sentido de criar é também o verdadeiro sentido de educação. A educação se faz de dentro para fora. Fazendo com que o aluno ou aluna desabroche, se desate, desate o seu ser e deixe fluir a essência. Caso contrário, se a educação acontece de fora para dentro, como se acontecesse através de um funil, não seria e-ducação. Seria antes in-ducação.

Este seria também o verdadeiro conceito do desenvolvimento. O desenvolvimento quer pessoal ou municipal, nacional ou global deveria dar-se na direção indicada por Nhamandu: de dentro para fora. Des-envolver é tirar o papel que cobre o presente. É abrir o pacote. Lá dentro está a essência. Assim desenvolvimento não se mede por quantidade de loteamentos ou favelas, metro quadrado de asfalto por ano ou por expansão territorial. Isto está mais próximo de uma “inchação”. Neste sentido, os países, do mundo todo incham e não se desenvolvem. Não estão conseguindo fazer desabrochar o melhor que existe nas pessoas, nas instituições, nas religiões, na economia. Isso não é desenvolvimento no sentido xamânico.

O Canto Sagrado Mbya Guarani prossegue dando detalhes sobre o ato da criação do corpo com o qual Nhamandu se manifestaria à humanidade que ele criaria. Ele começou a criar-se de baixo para cima e não de cima para baixo. Ele começou das plantas dos pés. Da escuridão total que existia quando ainda não havia luz, começam a surgir as plantas dos pés do futuro corpo de Nhamandu. Das plantas dos pés, o Canto Sagrado canta à beleza da aparição do “apyka apu’a i” - ou seja, do pequeno assento redondo, o tamborete ou assento do xamã guarani, símbolo da autoridade e do poder. Nas futuras comunidades, haverá sempre um “apyka” a ser usado pelo xamã, na deliberação, no ensinamento e nas reuniões com a comunidade.

Mas vemos aqui que a criação do corpo de Nhamandu nos dá a idéia de algo que progride de baixo para cima. Algo que sobe. Que se levanta. Dos pés, à importante região do corpo que entra em contato com o apyka. A humanidade não é somente a única forma de criação a andar sobre dois pés. Á a única que se senta. Que faz cadeiras e que antes de que existisse cadeiras sentava em pedras, em troncos de árvores, em qualquer outra superfície que lhe permitisse descanso. Sentar é um passo importante do levantar. E sentar-se para quê? Para descansar, para pensar, meditar, trabalhar a mente, comer, cuidar das necessidades de manutenção do corpo.

A narração prossegue com a criação dos olhos – chamados de “divinos reflexos da sabedoria” (Yvara jechakua mba’ekuaa) e os ouvidos e as divinas palmas das mãos com a vara-insígnia do chefe que cujo papel ele assumiria e por fim as unhas, nas pontas dos dedos, tal qual ramas floridas. E continuando neste processo ascendente, o Canto Sagrado vai destacar a última parte do corpo em criação a ser citado no hino: a divina coroa excelsa – isto é o topo da cabeça. Está completa a ascensão criativa do corpo de Ñhamandu.

Dos pés ao topo da cabeça. Da terra para o céu. Do chão para o universo. Do torrão para o cosmo. Assim funciona nossa conexão com o resto da criação ou melhor, com o restante de nossos irmãos da criação. Com o todo. Nas plantas dos pés onde se encontram os chacras que nos conectam com a Terra Mãe ao chacra do topo da cabeça que nos ligam com o universo e o vice-versa. Aí está contida nossa história. A humanidade é a parte da criação de Nhamandu que se ergeu. Se levantou. Tirou as duas patas dianteira do chão e se pôs a andar. Este simples fato que não parece ser muito lembrado pelo mundo “civilizado” quer oriental ou ocidental, parece ser uma constante na cabeça guarani. A humanidade se levantou. A humanidade se ergueu. Pronto, está de pé. A humanidade anda e corre sobre dois pés. Isso é maravilhoso. Isso é um milagre. Nhamandú se ergueu – Nhamandu ogueropoã! Nós também. E para quê?

Esta pergunta pareceria tola nas ruas de nossas cidades. Imaginem sair pelas ruas de Manhattan e perguntar a um executivo da Wall Street: Señor, diga-me, por que o senhor está erguido? Ou simplesmente, por que o senhor caminha? Ou o que significam seus pés para você?